12 de julho de 2020

Caso George Floyd: as consequências vividas por quem filma cenas de violência policial

 Caso George Floyd: as consequências vividas por quem filma cenas de violência policial
Dennis Flores (à esq.) filma abordagens da polícia desde os anos 1990. – Foto: Reprodução

Quando vídeos de abordagens abusivas da polícia geram manchetes, há uma figura importante na história sobre a qual raramente ouvimos falar – a pessoa que filma.

Quando Darnella Frazier, de 17 anos, começou a gravar, George Floyd já estava com falta de ar, implorando repetidamente: “por favor, por favor, por favor”.

A câmera estava filmando havia segundos quando Floyd, 46, pronunciou mais três palavras que agora se tornaram um grito de guerra para os manifestantes. “Não consigo respirar”, disse Floyd.

Ele se esforçou para falar enquanto estava deitado, preso ao chão por três policiais. Um desses policiais, Derek Chauvin, 44 anos, pressionou um joelho contra o pescoço de Floyd.

Frazier estava levando seu primo de nove anos para a Cup Foods, uma loja perto de sua casa em Minneapolis, Minnesota, quando viu Floyd sofrendo com a abordagem da polícia. Ela parou, pegou o telefone e apertou o botão.

Ela filmou por 10 minutos e nove segundos, até que os policiais e Floyd deixaram a cena — Chauvin em pé, Floyd em uma maca.

Nesse momento, Frazier nunca poderia imaginar a cadeia de eventos que seu vídeo colocaria em movimento. Com o clique de um botão, a adolescente deu origem a uma onda de protestos, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo.

“Ela sentiu que tinha que documentar aquilo”, disse à BBC o advogado de Frazier, Seth Cobin. “É como se o movimento pelos direitos civis tivesse renascido de uma maneira totalmente nova, por causa desse vídeo.”

Frazier, uma estudante do ensino médio, não quis dar entrevista. O advogado dela disse que ficou traumatizada. Foi, segundo ele, “a coisa mais terrível que ela já viu”.

Desde então, ela tem ido ao terapeuta e “está indo muito bem”, disse Cobin.

Derek Chauvin será julgado por homicídio de George Floyd. – Foto: Reprodução

Lidar com a resposta ao vídeo dela também não foi fácil. No Facebook, onde ela postou o vídeo, a reação foi uma mistura de choque, indignação, elogios e críticas.

Em uma postagem no Facebook, compartilhada em 27 de maio, Frazier respondeu às acusações de que filmou o vídeo para obter audiência na internet e não fez o suficiente para impedir a morte de Floyd.

“Se não fosse por mim, quatro policiais ainda teriam seus empregos, causando outros problemas. Meu vídeo foi divulgado em todo o mundo para que todos vissem e soubessem”, escreveu Frazier.

A reação ao vídeo de Frazier resume o dilema enfrentado pelos espectadores que registram imagens de incidentes de violência policial. Outros casos semelhantes mostraram que é uma posição muito difícil.

Antes dos smartphones

Como um “observador da polícia” veterano em Nova York, Dennis Flores conhece na pele sobre as consequências de filmar a atividade policial.

Ele foi preso mais de 70 vezes desde que começou a documentar a força policial da cidade, o Departamento de Polícia de Nova York, no final dos anos 90.

Seu uso do vídeo para expor a brutalidade policial abriu caminho para o crescente movimento de responsabilização policial visto hoje nos EUA.

O espancamento de Rodney King foi um dos primeiros episódios de filmagem de abusos da polícia. – Foto: Reprodução

As raízes do movimento podem ser encontradas em 1991, quando um encanador filmou o que foi descrito como o primeiro vídeo viral do mundo de brutalidade policial.

Mostrou o espancamento brutal de Rodney King, um homem negro desarmado, por vários policiais, depois de uma perseguição em Los Angeles, Califórnia.

Sem que os policiais vissem, George Holliday filmou a cena da varanda de seu apartamento em sua Sony Handycam, na época uma câmera sofisticada. Depois de compartilhar a fita com uma emissora de TV local, o espancamento se tornou um ultraje nacional e global.

Essa raiva se transformou em tumultos, um ano depois, quando a justiça aplicou atenunates às penas dos policiais envolvidos no caso.

“A surra de Rodney King foi o catalisador da documentação em vídeo”, diz Flores à BBC.

A Primeira Emenda da Constituição dos EUA protege o direito dos americanos de filmar a polícia.

Nos primeiros dias da observação policial, não havia smartphones, plataformas de mídia social ou provedores de internet 5G. Era apenas Flores, uma câmera SLR de 35 mm e um gravador. Mas à medida que a tecnologia melhorava, a capacidade de controlar a polícia era democratizada.

“As pessoas comuns podem expor repentinamente o comportamento da polícia. E isso só aumenta com casos como o de Eric Garner”, disse Flores.

Um memorial a George Floyd foi erguido no local onde ele foi abordado e morto pela polícia. – Foto: Reprodução

Garner, um afro-americano de 43 anos de idade, morreu em 2014 depois de ser colocado em uma posição de estrangulamento por um policial em Nova York. Ele foi detido por supostamente vender cigarros ilegalmente.

Como Floyd, Garner disse repetidamente aos policiais: “Eu não consigo respirar” – palavras que se tornaram um grito de guerra para os manifestantes do movimento Black Lives Matter seis anos atrás e depois da morte de Floyd.

A morte de Garner foi considerada um homicídio, mas, de maneira controversa, nenhuma acusação foi feita contra Daniel Pantaleo, o policial que o deteve.

O que aconteceu com Ramsey Orta, a pessoa que filmou a morte de Garner, foi igualmente controverso.

Ele alegou ter sofrido uma campanha de assédio policial depois que o vídeo se tornou viral.

Orta não tinha a ficha limpa, tendo já sido fichado por ilegalidades.

Ele reconheceu isso, mas, em 2019, ele disse “que os policiais estavam me seguindo todos os dias desde que Eric morreu”.

Em 2016, Orta fez um acordo com a promotoria e se declarou culpado de crimes envolvendo armas e drogas. Ele foi condenado a quatro anos de prisão.

As acusações não estavam relacionadas às filmagens da morte de Garner. Mas Flores, amigo de Orta, acredita que seu vídeo o colocou na mira da polícia de Nova York.

Ramsey Orta diz que virou alvo da polícia depois de filmar uma abordagem abusiva. – Foto: Reprodução

“O caso de Ramsey Orta é um excelente exemplo de como você se torna um alvo quando filma a polícia e decide ir a público. Ele foi forçado a sofrer por filmar policiais”, disse Flores.

Orta depois disse que se arrependeu por “não ter ficado na dele”.

Questão de Justiça

Por outro lado, as consequências de não compartilhar provas de abuso de força policial podem pesar na consciência, como Feidin Santana descobriu em 2015.

Santana estava caminhando para o trabalho em Charleston, na Carolina do Sul, quando deparou com uma cena peculiar: uma briga entre Michael Slager, um policial branco, e Walter Scott, um negro desarmado.

Santana pegou o telefone e começou a filmar. Scott virou as costas para o oficial e fugiu. O policial fez uma pausa, sacou a arma e apontou para as costas de Scott.

Oito tiros foram dados e Scott caiu no chão.

Feidin Santana cogitou apagar o vídeo que fez para evitar perseguição. – Foto: Reprodução

Durante três dias, Santana, um barbeiro que emigrou para os EUA da República Dominicana, guardou o vídeo e não o tornou público. Temendo represálias da polícia, Santana chegou a pensar em apagar as imagens e deixar Charleston para sempre. No final, um relatório da polícia sobre o incidente o fez mudar de ideia.

No relatório, Slager disse que temeu por sua vida depois que Scott pegou seu taser. Mas o vídeo mostrou que o relato de Slager era falso.

Como a única pessoa que podia provar isso, Santana se sentiu obrigado a compartilhar o vídeo com a família de Scott.

Depois que o vídeo veio a público, a “vida normal” de Santana acabou. “Nunca pensei que o vídeo fosse viralizar tão rapidamente. Ameaças de morte e mensagens racistas eram algo difícil para mim. Então você entende que, para mudar as coisas, precisa enfrentar o medo”, diz Santana.

Por fim, foram as imagens de Santana que levaram Slager a ser denunciado por assassinato. Por isso, Santana não se arrepende.

“Silêncio é igual a cumplicidade. Escolhi meu lado e continuarei lutando por uma sociedade melhor, sem medo de qualquer consequência”, afirmou.

A tecnologia teve um papel importante em mudar a sociedade para melhor. Nas mãos das pessoas comuns, as câmeras foram usadas para responsabilizar a polícia, garantindo justiça onde, de outra forma, poderia não haver. Em alguns processos judiciais, a prova em vídeo pode ser a diferença entre condenação e absolvição.

Os promotores saberão disso quando Chauvin, o oficial acusado de assassinar Floyd, for julgado.

Os investigadores extraíram o vídeo do telefone da jovem Frazier para usar como prova, disse seu advogado, Cobin.

No julgamento, Frazier pode ser chamada a testemunhar.

Ela já deu um depoimento à Divisão de Direitos Civis do FBI e ao Escritório de Apreensão Criminal de Minnesota (MBCA). Cobin disse que seu depoimento foi difícil de assistir.

“Foi muito emocionante. Ela estava chorando, passou por muitos traumas. Falou sobre como toda vez que fecha os olhos, é isso que ela vê: o rosto de George Floyd enquanto ele está morrendo. Ela os abre e ele se foi, ela os fecha e o vê novamente”, conta o advogado.

A morte de George Floyd gerou uma onda de protestos no mundo todo. – Foto: Reprodução

Frazier não queria ser envolvida em um julgamento por assassinato. Ela também não estava querendo atenção postando o vídeo da morte de Floyd nas redes sociais.

Cobin comparou Frazier a Rosa Parks, a afro-americana que, em 1955, recusou-se a ceder seu assento de ônibus a um homem branco no Alabama.

“Como Rosa Parks, ela não tinha como objetivo se tornar heroína ou ícone dos direitos civis. Ela estava no lugar certo, na hora certa. Ela não é um Martin Luther King, não é um Malcolm X, que escolheram liderar as pessoas. É uma pessoa comum que fez a coisa certa”, disse Cobin.

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Joshua Nevett: BBC News

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